O meu tio-bisavô

Há 86 anos nasceu no Brasil uma pessoa importantíssima para a minha vida que por acaso é o irmão mais novo da minha bisavó. Quem me conhece bem já ouviu falar dele, e o tema suscita sempre reacções curiosas: “uau, tu costumas trocar cartas com o teu tio-bisavô?” É verdade que ser tio bisavô dá um toque bem interessante à coisa, mas se pensarmos bem ele é capaz de ter a mesma idade ou até ser mais novo do que os vossos avós.

Eu não me lembro da primeira vez que o vi, mas lembro-me da última, quando o visitei em 2014, quando o conheci oficialmente. Conversando com ele, fecho os olhos e parece que a idade não nos separa mais.

Eu falo do meu tio com um sorriso rasgado, adoro saber tudo o que ele tem para partilhar comigo. Ele não tem filhos, mas disse-me que já fez as contas e que tem mais de duzentos sobrinhos. Infelizmente, não tive a sorte de crescer perto dos meus avós, não sei o que é ir almoçar a casa dos avós, não sei como é aquela coisa de que toda a gente se gaba com tom de sarcasmo (sim, eu sei que vocês adoram) da avó insistir para comer, ou de insistir em dar dinheiro para as despesas sabe-se lá do quê. Mas o que realmente me dava pena era não ter alguém do meu sangue com muuuitos anos de vida, com quem partilhar conversas sobre o hoje e o ontem, sobre os mistérios da vida e sobre todas essas coisas que me intrigam.

Acontece que com o meu tio passava-se o mesmo. Num desabafo, lamentou o facto dos jovens da família não terem interesse em conversar por horas. Não é que tenha a ver com o facto de serem jovens, simplesmente são pessoas que não têm os mesmos interesses que o meu tio. Como ele diz, sente falta de “bater um bom papo” no dia-a-dia, e eu lamento não poder estar lá para isso. Por isso, vamos colmatando a saudade com cartas, e-mails, postais, conversas e comentários no facebook. As cartas são o meio mais eficiente, mesmo que exijam mais paciência pelo tempo que demoram a chegar e pela dificuldade que o meu tio vai tendo em escrever. Eu vou guardando as cartinhas todas e vejo o monte a aumentar. A sensação de se receber uma carta de cinco páginas que já esperávamos há algum tempo, escritas unicamente para nós, é maravilhosa.

Ao conhecer melhor o meu tio eu vou conhecendo um pouco mais de mim e dos meus antepassados. Sinto-me cada vez mais reconectada com as minhas raízes e começo a compreender muita coisa cuja existência desconhecia por completo até há bem pouco tempo. Então criamos e revisitamos antigas memórias que, no fundo, é provavelmente o que realmente importa nesta vida. Eu sinto que o levo comigo para todo o lado, fecho os olhos e lá vamos nós de braço dados, entre risos, confissões e desabafos.

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Mais um pequeno passo, adopção gay e fim das taxas moderadoras da IVG

Mais um pequeno passo para Portugal. A propósito tenho, claro, uma ou outra palavrinha.

A começar pelo triste jornalismo do Diário de Notícias (gostava que isso fosse óbvio para todos os leitores) ao referir-se ao fim das taxas moderadoras à interrupção involuntária da gravidez como “aborto gratuito”. Para além de ser uma expressão indigna, é altamente tendenciosa num momento em que possivelmente não precisaria de o ser. Tenho sempre a sensação de que quem só diz asneiras fala mais alto. Depois volto atrás, lembro-me que a assembleia foi formada por nós, portugueses, através do sufrágio, e isso deixa-me mais descansada. E finalmente lembro-me também que esse mesmo povo elegeu o Marcelo Rebelo de Sousa como presidente. Então fico apenas confusa.

Continuando na questão da interrupção voluntária da gravidez, não entendo toda esta celeuma: demos dois passos à frente, um atrás, e agora novamente um à frente, pelo que estamos exactamente onde estávamos no ano de 2007, quando os portugueses foram consultados sobre a matéria. Ou seja, quer se goste ou quer não se goste, temos aqui um exemplo da democracia a funcionar. Ok, nem todos gostam, todos temos direito à nossa opinião, mas há coisas que mudam e é assim que é. Os comentários que tenho lido no facebook são no mínimo tristes. Isso incomoda-me porque, mais uma vez, vêm apenas da desinformação.

As pessoas argumentam que deveria ter sido feito um referendo – já foi – que deveria ser vetado – já foi – e quando uma pessoa ainda acha que a conversa não descambou, lá vem a conversa do Lobby gay, dos paneleiros que vão acabar com o mundo, das raparigas que poderão dar-se ao luxo de fazer sexo sem usar preservativo, porque sai mais barato fazer um aborto. Vá lá malta.

Por muito que ponham em causa a questão do aborto, não acredito que alguém acredite a sério que uma mulher faz um aborto de ânimo leve. Ou de que isso é fácil para ela. Ou de que lhe dá sequer prazer. “Uau, já que é grátis bora lá ter vezes sem conta um pretexto para sentir culpa e vergonha para o resto da vida! E ainda bem que os meus conterrâneos para isso contribuem!” pensam ela, essas porcas. Sim, é verdade que nunca é demais reforçar-se a importância do planeamento familiar e do uso de contraceptivos. Mas a última coisa de que uma mulher (e muitas vezes o homem) precisam é de se sentir humilhados quando se encontram nessa delicada situação. O mais engraçado (risosrisosrisos) é que de certeza que muitos dos que condenam e apontam o dedo já o fizeram ou apoiaram alguém que fez! Mas ei! Essa situação é diferente, não é? Porque pimenta no cu dos outros para mim é refresco!

Relativamente às taxas moderadoras, elas passaram a existir desde o ano passado. Quando se despenalizou o aborto, elas não entravam na equação! E o mais interessante, para todos os que condenam a decisão tomada, é que os abortos voluntários têm vindo a diminuir todos os anos, sendo que em 2013 foram realizados 17 414 e no ano de 2009, por exemplo, 19 848. Em quatro anos, menos duas mil intervenções voluntárias da gravidez. Acho que, discussões de ética à parte, é isso que todos nós queremos, até porque a penalização do aborto leva a tudo menos ao fim da sua existência.

Quanto à adopção, também não é uma novidade. Cavaco vetou, mas era óbvio o desfecho da conversa. Foi só um acto desesperado de mimalhice. Pobre Cavaco. Por isso estou feliz, estou feliz por todos os meus amigos e amigas homossexuais, bissexuais, trans, por todos.

Eu sou pelo amor e fico com pena que não sejamos todos assim. Sim, eu compreendo que haja muita gente com ideias diferentes, mas fico desapontada por saber que muitas dessas pessoas nunca irão colocar o orgulho ou os preconceitos sociais de parte, nunca serão capazes de se colocar no lugar do outro. E no fim, sinceramente, acho que acabam por ser as mais infelizes. Ao fim do dia, aplaudo o rumo que estamos a tomar e acredito sinceramente que é o melhor.

As primeiras vezes que fui assediada

Para começar a semana bem, hoje dei de caras com este vídeo e aconselho a todos (homens e mulheres) verem-no com atenção. A propósito de uma concorrente do MasterChef Kids Brasil ter sido vítima de pedofilia aos 12 anos e de ter sido alvo de inúmeros comentários ordinários por toda a internet, surgiu um movimento de nome #primeiroassédio. O objectivo era que homens e mulheres partilhassem as suas primeiras experiências como vítimas de assédio sexual e os resultados foram assustadores. É desesperante o facto do assédio e do abuso sexual ser algo normal, parte do dia-a-dia de qualquer mulher. E, pior ainda, é aceitável. Ninguém faz caso disso. Ninguém acha muito estranho se uma menina de 10 anos ouve uma pessoa mais velha dizer-lhe coisas de cariz sexual que ela nem sequer julgava existirem.

À semelhança de praticamente todas as mulheres que conheço, também eu tenho algumas histórias na manga:

1. Era verão, eu tinha 12 anos e fui com um amigo passear a minha cadela. Ele entrou na mercearia e eu fiquei à porta à espera. Passou por mim um senhor de 50 ou 60 anos várias vezes. Eu ainda não tinha idade suficiente para me sentir desconfortável. Achei só estranho. Até que, a certa altura, o senhor enfiou a mão no meu rabo e deu-me um apalpão que pareceu uma eternidade. Eu fiquei em pânico. O meu amigo saiu da mercearia, eu contei-lhe o que tinha acontecido, já ninguém via o senhor. Fomos a correr para casa e eu contei logo aos meus pais o que tinha acontecido, provavelmente à procura de algum tipo de conforto. A resposta que obtive do meu pai foi algo do género “Estavas à espera do quê, a sair à rua de saia?”.

2. Mais uma vez nas férias de verão (é quando temos menos roupinha, malandras), estava no Brasil, no parque infantil do condomínio de uns primos, a brincar com a minha amiguinha. Devíamos ter 8 ou 9 anos. A estrutura onde brincávamos era alta, tinha escadas e escorregas. Por isso, se subíssemos ao topo ficávamos numa plataforma de onde conseguíamos avistar a rua e quem por ali passasse, atrás do muro alto. A zona circundante era meio abandonada, com descampados que hoje devem ser já outros condomínios com prédios ainda mais altos. Começámos a dançar como se estivéssemos na televisão (estar num programa de televisão era o cenário de 99% das nossas brincadeiras). Quando alguém passava na rua, nós entusiasmavamo-nos, acho que queríamos que as pessoas aplaudissem, sorrissem, como se fossemos famosas.  Até que apareceu um homem de bicicleta que ficou a olhar para nós, e manteve-se a percorrer pequenos círculos na sua bicicleta enquanto nos admirava. Do alto da nossa inocência, soltámos risinhos e continuámos a dançar e a saltar. Sentíamo-nos protegidas pelo muro. O homem começou a pôr a mão entre as pernas. Começou com pequenas provocações, mas não me lembro do que disse. Talvez tenha só dito como éramos bonitas. A imagem daquele homem nojento a tocar-se a olhar para nós mantém-se intacta na minha memória. Nós assustámo-nos, percebemos que alguma coisa não estava bem. Corremos para contar a um adulto, de certa forma também envergonhadas e com algum sentimento de culpa. Não podíamos adivinhar. Eu sabia que havia pessoas más, mas pensei que eram fáceis de distinguir. Pensei que vinham ameaçar-nos com uma faca e que nos chamavam nomes. Não imaginei que sorrissem para nós e que nos elogiassem.

3. Tinha 14 anos, vinha da discoteca e estava a voltar para casa de táxi à uma da manhã. Lembro-me que o taxista tinha confianças com um rapaz que estava à porta da discoteca, parece que era o seu taxista de eleição, e isso fez-me sentir mais confiante. Íamos a conversar, ele disse que no fim da viagem me dava o cartão dele para me dar boleias sempre que eu precisasse, bastava ligar. Achei uma boa ideia. Não gostava propriamente de andar de táxi sozinha, mas os meus pais sempre se recusaram a irem buscar-me às discotecas. No final da viagem, como prometido, o taxista entregou-me o seu cartão, virando-se para trás e estendendo o braço. No espaço de tempo em que aceitei o cartão e o guardei, agradecendo, ele pôs-me a mão na perna e acariciou-ma.

4. Ao longo dos primeiros anos da minha adolescência dormia em casa de amigas, como é natural, e elas muitas vezes dormiam na minha. Havia uma casa em particular que me deixava desconfortável, porque o pai da minha amiga era demasiado carinhoso comigo, olhava-me de uma forma estranha, mas podia ser só da minha cabeça. Uma vez apalpou-me o rabo enquanto eu subia as escadas do prédio – foi um misto entre uma palmadinha de amor e uma festinha. É óbvio que nunca mais lá fui dormir.

5. Quando tinha 15 anos um velho na rua disse que queria chupar-me as mamas e chamou-me bebé. Desta vez reagi rapidamente, disparando agressivamente ofensas ao velho. Quando eu contava à minha mãe os “piropos” que ouvia (com alguns filtros pela vergonha que sentia, claro) ela dizia: devias aceitar esses comentários como elogios, afinal és uma rapariga bonita.

Não a culpo por pensar assim, na verdade esta mentalidade existia e existe pelo facto de ser tão frequente e até expectável que adultos abusem sexualmente de crianças de forma tão dissimulada. E depois, quando deixam de ser crianças, situações semelhantes continuam a acontecer. Não deixem que isso aconteça. O medo de sermos violadas não deveria ser uma constante quando andamos sozinha de noite ou de dia. Falem, partilhem, condenem. Mas silêncio não.

Tudo o que achamos saber sobre o vício está errado [vídeo]

O vício é uma coisa terrível. É ainda mais terrível quando as pessoas estão viciadas e não se dão conta, ou entram em negação – clássico dos viciados, certo? Eu não sou alcoolico, só gosto de beber álcool (todos os dias). Eu não sou viciado no ipad, só gosto de jogar nele (todos os dias e a todo o momento, se mo deixarem). Nós, meros seres humanos, temos que aprender a disciplinar-nos no sentido de nos apercebermos rapidamente que aquilo que gostamos de fazer nos começa a controlar, em vez do contrário. Seja com comida, tabaco, exercício, drogas ou gadgets, os vícios comprometem a nossa proactividade, saúde e, ao final das contas, a nossa felicidade. Mas o que é que as leva a deixarem-se levar pelos vícios? Eu, por exemplo, bebi álcool em Erasmus como se de água se tratasse (sim, mãe, estou a exagerar para provar um ponto de vista) e não fiquei viciada. Porquê?

Tenho orgulho em viver no único país onde o consumo de drogas pesadas já é encarado como uma doença e não como um crime. O consumo de drogas foi despenalizado em 2001. Em vez de punir e rebaixar os consumidores, a abordagem passou a ser tratá-los e reintegrá-los na sociedade. Dar-lhes, no fundo, propósitos pelos quais lutar. Esta foi uma jogada muito hábil que permitiu baixar em 50%  o consumo  de drogas injectáveis em Portugal nos últimos 15 anos.

Johann Hari fez um brilhante discurso sobre o vício (que podem ver aqui), desmantelando mitos que continuam a ser tidos como verdadeiros. Hari conclui que o vício resulta de uma necessidade de compensação emocional, sendo que é por aí que se encontra a saída de um ciclo potencialmente fatal: através da (re)conexão – com os outros, com o mundo à nossa volta e sobretudo connosco. O vídeo que partilho é um resumo animado de cinco minutos, com os pontos mais importantes daquilo que Hari partilha na Ted Talk.

Toda esta questão da reconexão consigo próprio angustia-me, porque não deveria ser um imperativo. Visto que é uma necessidade vital, deveria ser algo natural em nós, desde que nascemos até que morremos. Não deveria ser suposto alguém ter de nos lembrar disso. E, mesmo assim, aqueles que insistem em fazê-los são geralmente encarados como doidos. Isto lembra-me um belo livro que (felizmente) tive de ler no secundário, O Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley. Confesso que na altura não achei muita piada, mas hoje faz-me todo o sentido. O mundo está cada vez mais instantâneo e mecanizado – é verdade que é bom para muita coisa, mas…

Os “meus” dois candidatos às presidenciais, ou um resumo muito breve do que eu acho sobre tudo isto

As eleições presidenciais estão a dois dias de distância e urge saber em quem votar. Tenho vindo a pensar muito sobre o tema, sobretudo porque tenho feito muita pesquisa, e continuo sem me sentir 100% iluminada. Para mim, o que me pesa mais na decisão é o background de cada candidato.

Quem me conquistou o coração nesse sentido foi Edgar Silva. Não sei porque é que não tem mais projecção. Praticamente tudo o que li sobre ele me agradou. Acho interessantíssimo o percurso dele até agora, defendo os ideais que ele defende e a sua atitude inspira-me confiança. Parece-me um homem transparente, humilde, competente e justo. Eu não sou capaz de situar-me concretamente em termos de política, mas sei que caio mais para o lado de Edgar Silva, ou seja, Partido Comunista – o que, infelizmente, é para a maior parte das pessoas uma desvantagem. Porque os comunistas comem bebés ao pequeno almoço, etc. E se depois juntamos “católico” à brincadeira, pronto, toda a gente a fugir. No entanto, embora ache que o background político deve ter alguma relevância, não estamos a votar em partidos e sim em pessoas. Não se esqueçam disso. E este candidato, como pessoa, parece-me extremamente sábio. Edgar Silva denunciou casos de pedofilia com os meninos de rua no Funchal no final dos anos 80, lutando para tirar as crianças da rua. Deixou de ser padre por estar desiludido com o sacerdócio. Destaco esta entrevista, na qual ele explica que foi criticado pelas pessoas por ter escolhido o PCP, ao que respondia ‘Acham que nesta opção de estar do lado de quem é mais explorado fazia sentido eu estar no partido chefiado pelos vossos patrões, por aqueles que vos exploram?’. NA MUCHE! Já agora leiam também esta.

O outro candidato que me intriga é Sampaio da Nóvoa. Há quem pense que Sampaio da Nóvoa fica a perder por nunca ter tido um percurso na política. É, aliás, a principal coisa que Marcelo Rebelo de Sousa nos quer obrigar a ver. Eu encaro esse suposto “lapso” de SN com bons olhos. Confesso que me deixo encantar pela ideia que ele transmite da política precisar de uma renovação. É uma ideia com a qual concordo e que espero que se cumpra pela positiva. Acho que é um candidato forte, gostei de o ver nos debates mas continuo com algum receio, unicamente porque Sampaio da Nóvoa não se posiciona tanto à esquerda quanto eu e senti que não me dava as respostas de que eu precisava. Na verdade, verifiquei o mesmo com praticamente todos os candidatos. O discurso político é algo que na generalidade me angustia, porque é cheio de diplomacias e expressões politicamente correctas, a pedir um tradutor. Receio que a propaganda de Sampaio da Nóvoa tenha um cheirinho a mentira dissimulada. No entanto, um amigo em quem confio muito disse-me que o conhece bem, que já o viu trabalhar e que é uma pessoa honesta e verdadeira, que quer mudar o estado de coisas e cuja verdadeira preocupação são os interesses do país (e não os favores, encher os bolsos, etc). Vale o que vale.

Por isso, quero tirar votos ao Marcelo Rebelo de Sousa, a quem saiu o tiro pela culatra N vezes, ao mesmo tempo que voto no ex-padre comuna e essa tarefa talvez não seja fácil. De qualquer das formas, este domingo não se abstenham de exercer o vosso direito de voto!

Finalmente, mais informação sobre todos os candidatos (não filtrada por mim) aqui e aqui.

Não à abstenção – A importância do voto em branco

Conheço muitas pessoas que dizem que simplesmente não percebem nada de política. Posto isto não votam, ou votam num candidato (ou partido) qualquer cujo nome seja o mais sonante, comprometendo o percurso do país e contribuindo para o apodrecimento de um sistema que criticam durante a vida inteira.

Há desinteresse, o que lamento, mas pior ainda é a desinformação. O desinteresse é um sintoma que deve ser expressado através do voto em branco e consequentemente combatido. Será porque os políticos não servem as necessidades do povo? O que é que deverá mudar?

A desinformação, por sua vez, não resulta de uma completa falta de interesse, mas talvez mais de preguiça. Ou da falta de noção de que votar é um direito e que cada voto pode fazer a diferença. No passado, pessoas morreram por esse direito, e vocês ficam em casa a descansar?

E porque é que o voto em branco é tão importante? Porque se por acaso a maioria dos eleitores votar em branco, as eleições são anuladas. Isto significa que novas eleições serão preparadas, com novos candidatos e novas campanhas eleitorais. E antes de pensarem que isso é uma seca, relembro-vos de que estamos a falar do nosso país e das nossas vidas. Já a abstenção, apesar de manifestar a tal falta de interesse e de confiança, não tem implicações directas.

Sou apologista da mudança de cenário, enquanto que outros não serão. Mas, pelo menos, todos deveríamos estar de acordo que a procrastinação política dos portugueses tem de terminar. Por isso, este domingo, tirem a razão ao Zeca Afonso e vão mas é votar.

Ah, afinal o aquecimento global não é só um mito [vídeo]

Foi ontem anunciado pela Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA)  que 2015 foi o ano mais quente de que há registo. Antes de 2015, deduzem bem, foi 2014.

Eu gostava de perceber como é que há ainda tantas pessoas que afirmam que o aquecimento global não passa de um mito e que alterações climatéricas desta escala são perfeitamente naturais.

Não, não são naturais – pelo contrário! O vídeo abaixo explica sucintamente as principais consequências do aquecimento global que estão a acontecer agora mesmo.

E para todos aqueles que julgam que não querem saber do planeta – ei, o planeta também não quer saber de vocês. Quando se fala em proteger o planeta, na verdade quer-se dizer protegermo-nos a nós mesmos (e talvez também aos pobres animais que têm sofrido com os nossos actos desmedidos, mas calma, para isso é preciso ter-se empatia pelos outros seres vivos)! Parece que estamos à espera de um cenário tipo The Day After Tomorrow à escala global, estamos demasiado confortáveis no nosso ninho, somos demasiado preguiçosos para tentar contrariar a tendência. Será que vamos a tempo?

Alterar pequenos hábitos pode parecer que não faz a diferença, mas multipliquem isso por pelo menos mais de metade da população do planeta. Já é qualquer coisa. No entanto, o que eu realmente gostava de ver era chefes governantes por todo o mundo a arregaçarem as mangas e a apostarem verdadeiramente em energias renováveis, a impôr sanções pesadas a líderes de indústrias fabris pelas emissões de gases poluentes, a criação massiva de gado para consumo humano a cair rapidamente (sim, o cocó e os puns das vacas têm um peso enorme na poluição mundial e no aquecimento global, é uma das razões pelas quais muitas pessoas se tornam vegetarianas, podem ler mais sobre isto aqui). Mas comecemos por nós.