As primeiras vezes que fui assediada

Para começar a semana bem, hoje dei de caras com este vídeo e aconselho a todos (homens e mulheres) verem-no com atenção. A propósito de uma concorrente do MasterChef Kids Brasil ter sido vítima de pedofilia aos 12 anos e de ter sido alvo de inúmeros comentários ordinários por toda a internet, surgiu um movimento de nome #primeiroassédio. O objectivo era que homens e mulheres partilhassem as suas primeiras experiências como vítimas de assédio sexual e os resultados foram assustadores. É desesperante o facto do assédio e do abuso sexual ser algo normal, parte do dia-a-dia de qualquer mulher. E, pior ainda, é aceitável. Ninguém faz caso disso. Ninguém acha muito estranho se uma menina de 10 anos ouve uma pessoa mais velha dizer-lhe coisas de cariz sexual que ela nem sequer julgava existirem.

À semelhança de praticamente todas as mulheres que conheço, também eu tenho algumas histórias na manga:

1. Era verão, eu tinha 12 anos e fui com um amigo passear a minha cadela. Ele entrou na mercearia e eu fiquei à porta à espera. Passou por mim um senhor de 50 ou 60 anos várias vezes. Eu ainda não tinha idade suficiente para me sentir desconfortável. Achei só estranho. Até que, a certa altura, o senhor enfiou a mão no meu rabo e deu-me um apalpão que pareceu uma eternidade. Eu fiquei em pânico. O meu amigo saiu da mercearia, eu contei-lhe o que tinha acontecido, já ninguém via o senhor. Fomos a correr para casa e eu contei logo aos meus pais o que tinha acontecido, provavelmente à procura de algum tipo de conforto. A resposta que obtive do meu pai foi algo do género “Estavas à espera do quê, a sair à rua de saia?”.

2. Mais uma vez nas férias de verão (é quando temos menos roupinha, malandras), estava no Brasil, no parque infantil do condomínio de uns primos, a brincar com a minha amiguinha. Devíamos ter 8 ou 9 anos. A estrutura onde brincávamos era alta, tinha escadas e escorregas. Por isso, se subíssemos ao topo ficávamos numa plataforma de onde conseguíamos avistar a rua e quem por ali passasse, atrás do muro alto. A zona circundante era meio abandonada, com descampados que hoje devem ser já outros condomínios com prédios ainda mais altos. Começámos a dançar como se estivéssemos na televisão (estar num programa de televisão era o cenário de 99% das nossas brincadeiras). Quando alguém passava na rua, nós entusiasmavamo-nos, acho que queríamos que as pessoas aplaudissem, sorrissem, como se fossemos famosas.  Até que apareceu um homem de bicicleta que ficou a olhar para nós, e manteve-se a percorrer pequenos círculos na sua bicicleta enquanto nos admirava. Do alto da nossa inocência, soltámos risinhos e continuámos a dançar e a saltar. Sentíamo-nos protegidas pelo muro. O homem começou a pôr a mão entre as pernas. Começou com pequenas provocações, mas não me lembro do que disse. Talvez tenha só dito como éramos bonitas. A imagem daquele homem nojento a tocar-se a olhar para nós mantém-se intacta na minha memória. Nós assustámo-nos, percebemos que alguma coisa não estava bem. Corremos para contar a um adulto, de certa forma também envergonhadas e com algum sentimento de culpa. Não podíamos adivinhar. Eu sabia que havia pessoas más, mas pensei que eram fáceis de distinguir. Pensei que vinham ameaçar-nos com uma faca e que nos chamavam nomes. Não imaginei que sorrissem para nós e que nos elogiassem.

3. Tinha 14 anos, vinha da discoteca e estava a voltar para casa de táxi à uma da manhã. Lembro-me que o taxista tinha confianças com um rapaz que estava à porta da discoteca, parece que era o seu taxista de eleição, e isso fez-me sentir mais confiante. Íamos a conversar, ele disse que no fim da viagem me dava o cartão dele para me dar boleias sempre que eu precisasse, bastava ligar. Achei uma boa ideia. Não gostava propriamente de andar de táxi sozinha, mas os meus pais sempre se recusaram a irem buscar-me às discotecas. No final da viagem, como prometido, o taxista entregou-me o seu cartão, virando-se para trás e estendendo o braço. No espaço de tempo em que aceitei o cartão e o guardei, agradecendo, ele pôs-me a mão na perna e acariciou-ma.

4. Ao longo dos primeiros anos da minha adolescência dormia em casa de amigas, como é natural, e elas muitas vezes dormiam na minha. Havia uma casa em particular que me deixava desconfortável, porque o pai da minha amiga era demasiado carinhoso comigo, olhava-me de uma forma estranha, mas podia ser só da minha cabeça. Uma vez apalpou-me o rabo enquanto eu subia as escadas do prédio – foi um misto entre uma palmadinha de amor e uma festinha. É óbvio que nunca mais lá fui dormir.

5. Quando tinha 15 anos um velho na rua disse que queria chupar-me as mamas e chamou-me bebé. Desta vez reagi rapidamente, disparando agressivamente ofensas ao velho. Quando eu contava à minha mãe os “piropos” que ouvia (com alguns filtros pela vergonha que sentia, claro) ela dizia: devias aceitar esses comentários como elogios, afinal és uma rapariga bonita.

Não a culpo por pensar assim, na verdade esta mentalidade existia e existe pelo facto de ser tão frequente e até expectável que adultos abusem sexualmente de crianças de forma tão dissimulada. E depois, quando deixam de ser crianças, situações semelhantes continuam a acontecer. Não deixem que isso aconteça. O medo de sermos violadas não deveria ser uma constante quando andamos sozinha de noite ou de dia. Falem, partilhem, condenem. Mas silêncio não.

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