Mais um pequeno passo, adopção gay e fim das taxas moderadoras da IVG

Mais um pequeno passo para Portugal. A propósito tenho, claro, uma ou outra palavrinha.

A começar pelo triste jornalismo do Diário de Notícias (gostava que isso fosse óbvio para todos os leitores) ao referir-se ao fim das taxas moderadoras à interrupção involuntária da gravidez como “aborto gratuito”. Para além de ser uma expressão indigna, é altamente tendenciosa num momento em que possivelmente não precisaria de o ser. Tenho sempre a sensação de que quem só diz asneiras fala mais alto. Depois volto atrás, lembro-me que a assembleia foi formada por nós, portugueses, através do sufrágio, e isso deixa-me mais descansada. E finalmente lembro-me também que esse mesmo povo elegeu o Marcelo Rebelo de Sousa como presidente. Então fico apenas confusa.

Continuando na questão da interrupção voluntária da gravidez, não entendo toda esta celeuma: demos dois passos à frente, um atrás, e agora novamente um à frente, pelo que estamos exactamente onde estávamos no ano de 2007, quando os portugueses foram consultados sobre a matéria. Ou seja, quer se goste ou quer não se goste, temos aqui um exemplo da democracia a funcionar. Ok, nem todos gostam, todos temos direito à nossa opinião, mas há coisas que mudam e é assim que é. Os comentários que tenho lido no facebook são no mínimo tristes. Isso incomoda-me porque, mais uma vez, vêm apenas da desinformação.

As pessoas argumentam que deveria ter sido feito um referendo – já foi – que deveria ser vetado – já foi – e quando uma pessoa ainda acha que a conversa não descambou, lá vem a conversa do Lobby gay, dos paneleiros que vão acabar com o mundo, das raparigas que poderão dar-se ao luxo de fazer sexo sem usar preservativo, porque sai mais barato fazer um aborto. Vá lá malta.

Por muito que ponham em causa a questão do aborto, não acredito que alguém acredite a sério que uma mulher faz um aborto de ânimo leve. Ou de que isso é fácil para ela. Ou de que lhe dá sequer prazer. “Uau, já que é grátis bora lá ter vezes sem conta um pretexto para sentir culpa e vergonha para o resto da vida! E ainda bem que os meus conterrâneos para isso contribuem!” pensam ela, essas porcas. Sim, é verdade que nunca é demais reforçar-se a importância do planeamento familiar e do uso de contraceptivos. Mas a última coisa de que uma mulher (e muitas vezes o homem) precisam é de se sentir humilhados quando se encontram nessa delicada situação. O mais engraçado (risosrisosrisos) é que de certeza que muitos dos que condenam e apontam o dedo já o fizeram ou apoiaram alguém que fez! Mas ei! Essa situação é diferente, não é? Porque pimenta no cu dos outros para mim é refresco!

Relativamente às taxas moderadoras, elas passaram a existir desde o ano passado. Quando se despenalizou o aborto, elas não entravam na equação! E o mais interessante, para todos os que condenam a decisão tomada, é que os abortos voluntários têm vindo a diminuir todos os anos, sendo que em 2013 foram realizados 17 414 e no ano de 2009, por exemplo, 19 848. Em quatro anos, menos duas mil intervenções voluntárias da gravidez. Acho que, discussões de ética à parte, é isso que todos nós queremos, até porque a penalização do aborto leva a tudo menos ao fim da sua existência.

Quanto à adopção, também não é uma novidade. Cavaco vetou, mas era óbvio o desfecho da conversa. Foi só um acto desesperado de mimalhice. Pobre Cavaco. Por isso estou feliz, estou feliz por todos os meus amigos e amigas homossexuais, bissexuais, trans, por todos.

Eu sou pelo amor e fico com pena que não sejamos todos assim. Sim, eu compreendo que haja muita gente com ideias diferentes, mas fico desapontada por saber que muitas dessas pessoas nunca irão colocar o orgulho ou os preconceitos sociais de parte, nunca serão capazes de se colocar no lugar do outro. E no fim, sinceramente, acho que acabam por ser as mais infelizes. Ao fim do dia, aplaudo o rumo que estamos a tomar e acredito sinceramente que é o melhor.