Ah, afinal o aquecimento global não é só um mito [vídeo]

Foi ontem anunciado pela Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA)  que 2015 foi o ano mais quente de que há registo. Antes de 2015, deduzem bem, foi 2014.

Eu gostava de perceber como é que há ainda tantas pessoas que afirmam que o aquecimento global não passa de um mito e que alterações climatéricas desta escala são perfeitamente naturais.

Não, não são naturais – pelo contrário! O vídeo abaixo explica sucintamente as principais consequências do aquecimento global que estão a acontecer agora mesmo.

E para todos aqueles que julgam que não querem saber do planeta – ei, o planeta também não quer saber de vocês. Quando se fala em proteger o planeta, na verdade quer-se dizer protegermo-nos a nós mesmos (e talvez também aos pobres animais que têm sofrido com os nossos actos desmedidos, mas calma, para isso é preciso ter-se empatia pelos outros seres vivos)! Parece que estamos à espera de um cenário tipo The Day After Tomorrow à escala global, estamos demasiado confortáveis no nosso ninho, somos demasiado preguiçosos para tentar contrariar a tendência. Será que vamos a tempo?

Alterar pequenos hábitos pode parecer que não faz a diferença, mas multipliquem isso por pelo menos mais de metade da população do planeta. Já é qualquer coisa. No entanto, o que eu realmente gostava de ver era chefes governantes por todo o mundo a arregaçarem as mangas e a apostarem verdadeiramente em energias renováveis, a impôr sanções pesadas a líderes de indústrias fabris pelas emissões de gases poluentes, a criação massiva de gado para consumo humano a cair rapidamente (sim, o cocó e os puns das vacas têm um peso enorme na poluição mundial e no aquecimento global, é uma das razões pelas quais muitas pessoas se tornam vegetarianas, podem ler mais sobre isto aqui). Mas comecemos por nós.

Uma catástrofe no Brasil

No dia 5 de Novembro de 2015 ocorreu em Mariana, Minas Gerais, o desabamento de uma barragem de resíduos de minério e de ferro. O acidente resulta num gravíssimo desastre ambiental, comparável ao acidente nuclear de Fukushima. A tragédia teve inúmeras consequências desastrosas, uma vez que foram largadas substâncias tóxicas no rio Doce (entre elas zinco, cobre, arsénio e mercúrio), no total de 60 milhões de metros cúbicos, equivalentes a 20 MIL piscinas olímpicas, tornando a água imprópria para consumo. Esta “lama tóxica” já alcançou o Oceano Atlântico.

Curiosamente, a cobertura mediática foi muito fraquinha. Será porque é algo que se passa do lado de lá? Talvez. Mas mesmo quando faço uma pesquisa intensiva sobre o assunto, não me parece que tenha tido até agora a atenção merecida a nível internacional. Porque é que é isto importante?

Em primeiro lugar, pelas consequências directas que teve: contam-se mais de 600 pessoas que ficaram sem casa, 17 mortos – humanos, porque a fauna e a flora do rio e das áreas ao redor foram exponencialmente mais afectadas, aniquilando a biodiversidade e as fontes de alimento da população do estado – 37 municípios continuam a ser afectados até hoje com dificultado acesso a água potável.

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E em segundo lugar, obviamente, pelas consequências a longo prazo. Por pelo menos 100 anos, a população e toda a cadeia alimentar da América do Sul (mais propriamente aquela que está mais próxima do Atlântico) estará gravemente comprometida.

De resto, existem também questões a nível da culpabilidade da Samacro e da Vale, indústrias envolvidas, processo que se encontra ainda em andamento, bem como o negativo impacto económico para o Brasil, que era o maior exportador de ferro e minério até à altura do acidente.

Eu pergunto-me o que é que estamos a fazer ao nosso planeta, às nossas pessoas e aos nossos animais em nome da ganância e da competitividade económica. Pergunto-me muitas vezes e nunca chego a uma conclusão. O mais triste é que não há assim tanta gente a querer saber destes acontecimentos, porque vivem na triste fantasia de que o mundo vai continuar a girar sempre a nosso favor.

Para quem tem interesse em saber mais sobre o tema:

Prefeituras relatam situação precária de cidades afetadas por lama em MG

Poluição resiste ao tempo e deixa água imprópria para consumo no Rio Doce

Quais os perigos da lama “tóxica” dos desastres de Minas Gerais?

Desastre em Mariana foi acidente ou crime?

Lama tóxica pode contaminar toda a cadeia biológica na região do Rio Doce, alerta geólogo

Não se esqueçam dos refugiados

 

sirianrefugeesA crise da Síria tem imenso que se lhe diga e tenciono abordá-la aos poucos aqui no blogue. Se o tema já parece complexo a quem não está por dentro, sentimo-nos como a Alice a cair na toca do coelho à medida que tentamos entrar com precaução. É um buraco que parece não ter fim, do qual se torna muito difícil sair. Mas não desistam: é complexo, mas isso não significa que seja difícil. A complexidade vem do facto de, como em tudo na vida, haver muitas verdades, muitas perspectivas e opiniões que nos ajudam a conceber uma opinião mais sólida sobre o tema mas que nunca nos darão garantias de que estamos certos (uma sensação da qual não sou grande fã). Sou apologista de que se cada um de nós fizer um esforço por conhecer melhor a bruta realidade que existe para lá das nossas quatro paredes, o mundo tornar-se-á um bocadinho melhor. Porque quando estamos a cair na toca do coelho, tudo o que vemos mexe connosco e impele-nos a falar mais alto e a agir.

Os media fizeram uma pausa da intensa cobertura da crise dos refugiados sírios, dando-nos a leve impressão de que a coisa não está tão má, de que agir já não é tão imperativo como era no final do verão de 2015. Mas não é assim. Refugiados continuam a ser impedidos de alcançar refúgio, posições extremistas quanto ao tema proliferam pela Europa e pelo mundo e a crescente discórdia e intolerância vão alimentando a guerra, servindo de mote para uma agenda particularmente perversa.

A crise dos refugiados de guerra não pode ser esquecida. Fechar os olhos não pode ser uma opção. A União Europeia prevê que em 2016 mais 3 milhões de refugiados e migrantes chegarão à Europa. O nosso mindset tem de mudar.

Por um lado, sinto que já se esclareceram bastantes mitos que existem relativamente aos refugiados. Por outro, continuo a achar que contribuir para acabar com esses fracos preconceitos nunca é demais, principalmente porque estamos a referir-nos acima de tudo a vidas, que importam tanto como a vossa ou a minha. Na verdade, independentemente de todas as teorias explicativas geradas ao redor do conflito – umas certamente mais aproximadas à verdade do que outras – existem dois factos inegáveis que muita gente ainda não conseguiu perceber:

  1. Existe uma sangrenta e violenta guerra que está a afectar muitas (mesmo muitas) pessoas, maior parte das quais são sírias.
  2. Essas pessoas tiveram as suas vidas interrompidas contra a sua vontade e, numa derradeira tentativa de sobrevivência, fugiram do seu país.

Agora peço-vos que dediquem alguns minutos a imaginar o seguinte cenário: de repente, vêem as vossas casas e cidades destruídas, os vossos amigos, familiares e vizinhos aos pedaços entre rios de sangue e entranhas e a cabeça do vosso irmão entregue à porta de casa numa caixa (não estou a inventar este pormenor). Podem dar asas à imaginação se quiserem, neste cenário de guerra não há limites para a crueldade humana. Convido-vos também a lerem os testemunhos de refugiados aqui.

Estas pessoas não queriam ter nada a ver com duas forças políticas que se degladiam pelo poder, mas que, ora uma ora outra, diariamente as ameaçavam de morte consoante as suas bárbaras ideologias. Quanto tempo de repressão e morte é que aguentariam perto de vocês até serem capazes de pagar dois mil euros e arriscar a vossa vida num mísero e sobrelotado barquinho salva-vidas pelo mar fora?

Estas pessoas não entram na Europa à procura de uma vida melhor. Vêm tão simplesmente à procura de uma vida. E se, por sorte, sobreviverem à viagem de barco, não só têm de lidar com os danos traumáticos que os últimos meses ou anos lhes provocaram, como também têm de aprender a lidar com o ódio de pessoas ignorantes que não entendem o que é colocar-se no papel do outro. Porque, apesar de todos os nossos azares, muita sorte temos em não estarmos a lutar pela sobrevivência no meio do terror e da violência. É que nesta questão dos refugiados, não é necessário entender-se toda a politiquice da guerra. Não é. Basta que se entenda a importância que tem qualquer vida e isso deve sobrepor-se a juízos, crenças e a qualquer medo infundado. Mas o medo  vem da ignorância e a ignorância deve ser combatida com a informação e com a comunicação.