Os “meus” dois candidatos às presidenciais, ou um resumo muito breve do que eu acho sobre tudo isto

As eleições presidenciais estão a dois dias de distância e urge saber em quem votar. Tenho vindo a pensar muito sobre o tema, sobretudo porque tenho feito muita pesquisa, e continuo sem me sentir 100% iluminada. Para mim, o que me pesa mais na decisão é o background de cada candidato.

Quem me conquistou o coração nesse sentido foi Edgar Silva. Não sei porque é que não tem mais projecção. Praticamente tudo o que li sobre ele me agradou. Acho interessantíssimo o percurso dele até agora, defendo os ideais que ele defende e a sua atitude inspira-me confiança. Parece-me um homem transparente, humilde, competente e justo. Eu não sou capaz de situar-me concretamente em termos de política, mas sei que caio mais para o lado de Edgar Silva, ou seja, Partido Comunista – o que, infelizmente, é para a maior parte das pessoas uma desvantagem. Porque os comunistas comem bebés ao pequeno almoço, etc. E se depois juntamos “católico” à brincadeira, pronto, toda a gente a fugir. No entanto, embora ache que o background político deve ter alguma relevância, não estamos a votar em partidos e sim em pessoas. Não se esqueçam disso. E este candidato, como pessoa, parece-me extremamente sábio. Edgar Silva denunciou casos de pedofilia com os meninos de rua no Funchal no final dos anos 80, lutando para tirar as crianças da rua. Deixou de ser padre por estar desiludido com o sacerdócio. Destaco esta entrevista, na qual ele explica que foi criticado pelas pessoas por ter escolhido o PCP, ao que respondia ‘Acham que nesta opção de estar do lado de quem é mais explorado fazia sentido eu estar no partido chefiado pelos vossos patrões, por aqueles que vos exploram?’. NA MUCHE! Já agora leiam também esta.

O outro candidato que me intriga é Sampaio da Nóvoa. Há quem pense que Sampaio da Nóvoa fica a perder por nunca ter tido um percurso na política. É, aliás, a principal coisa que Marcelo Rebelo de Sousa nos quer obrigar a ver. Eu encaro esse suposto “lapso” de SN com bons olhos. Confesso que me deixo encantar pela ideia que ele transmite da política precisar de uma renovação. É uma ideia com a qual concordo e que espero que se cumpra pela positiva. Acho que é um candidato forte, gostei de o ver nos debates mas continuo com algum receio, unicamente porque Sampaio da Nóvoa não se posiciona tanto à esquerda quanto eu e senti que não me dava as respostas de que eu precisava. Na verdade, verifiquei o mesmo com praticamente todos os candidatos. O discurso político é algo que na generalidade me angustia, porque é cheio de diplomacias e expressões politicamente correctas, a pedir um tradutor. Receio que a propaganda de Sampaio da Nóvoa tenha um cheirinho a mentira dissimulada. No entanto, um amigo em quem confio muito disse-me que o conhece bem, que já o viu trabalhar e que é uma pessoa honesta e verdadeira, que quer mudar o estado de coisas e cuja verdadeira preocupação são os interesses do país (e não os favores, encher os bolsos, etc). Vale o que vale.

Por isso, quero tirar votos ao Marcelo Rebelo de Sousa, a quem saiu o tiro pela culatra N vezes, ao mesmo tempo que voto no ex-padre comuna e essa tarefa talvez não seja fácil. De qualquer das formas, este domingo não se abstenham de exercer o vosso direito de voto!

Finalmente, mais informação sobre todos os candidatos (não filtrada por mim) aqui e aqui.

Não à abstenção – A importância do voto em branco

Conheço muitas pessoas que dizem que simplesmente não percebem nada de política. Posto isto não votam, ou votam num candidato (ou partido) qualquer cujo nome seja o mais sonante, comprometendo o percurso do país e contribuindo para o apodrecimento de um sistema que criticam durante a vida inteira.

Há desinteresse, o que lamento, mas pior ainda é a desinformação. O desinteresse é um sintoma que deve ser expressado através do voto em branco e consequentemente combatido. Será porque os políticos não servem as necessidades do povo? O que é que deverá mudar?

A desinformação, por sua vez, não resulta de uma completa falta de interesse, mas talvez mais de preguiça. Ou da falta de noção de que votar é um direito e que cada voto pode fazer a diferença. No passado, pessoas morreram por esse direito, e vocês ficam em casa a descansar?

E porque é que o voto em branco é tão importante? Porque se por acaso a maioria dos eleitores votar em branco, as eleições são anuladas. Isto significa que novas eleições serão preparadas, com novos candidatos e novas campanhas eleitorais. E antes de pensarem que isso é uma seca, relembro-vos de que estamos a falar do nosso país e das nossas vidas. Já a abstenção, apesar de manifestar a tal falta de interesse e de confiança, não tem implicações directas.

Sou apologista da mudança de cenário, enquanto que outros não serão. Mas, pelo menos, todos deveríamos estar de acordo que a procrastinação política dos portugueses tem de terminar. Por isso, este domingo, tirem a razão ao Zeca Afonso e vão mas é votar.

Não se esqueçam dos refugiados

 

sirianrefugeesA crise da Síria tem imenso que se lhe diga e tenciono abordá-la aos poucos aqui no blogue. Se o tema já parece complexo a quem não está por dentro, sentimo-nos como a Alice a cair na toca do coelho à medida que tentamos entrar com precaução. É um buraco que parece não ter fim, do qual se torna muito difícil sair. Mas não desistam: é complexo, mas isso não significa que seja difícil. A complexidade vem do facto de, como em tudo na vida, haver muitas verdades, muitas perspectivas e opiniões que nos ajudam a conceber uma opinião mais sólida sobre o tema mas que nunca nos darão garantias de que estamos certos (uma sensação da qual não sou grande fã). Sou apologista de que se cada um de nós fizer um esforço por conhecer melhor a bruta realidade que existe para lá das nossas quatro paredes, o mundo tornar-se-á um bocadinho melhor. Porque quando estamos a cair na toca do coelho, tudo o que vemos mexe connosco e impele-nos a falar mais alto e a agir.

Os media fizeram uma pausa da intensa cobertura da crise dos refugiados sírios, dando-nos a leve impressão de que a coisa não está tão má, de que agir já não é tão imperativo como era no final do verão de 2015. Mas não é assim. Refugiados continuam a ser impedidos de alcançar refúgio, posições extremistas quanto ao tema proliferam pela Europa e pelo mundo e a crescente discórdia e intolerância vão alimentando a guerra, servindo de mote para uma agenda particularmente perversa.

A crise dos refugiados de guerra não pode ser esquecida. Fechar os olhos não pode ser uma opção. A União Europeia prevê que em 2016 mais 3 milhões de refugiados e migrantes chegarão à Europa. O nosso mindset tem de mudar.

Por um lado, sinto que já se esclareceram bastantes mitos que existem relativamente aos refugiados. Por outro, continuo a achar que contribuir para acabar com esses fracos preconceitos nunca é demais, principalmente porque estamos a referir-nos acima de tudo a vidas, que importam tanto como a vossa ou a minha. Na verdade, independentemente de todas as teorias explicativas geradas ao redor do conflito – umas certamente mais aproximadas à verdade do que outras – existem dois factos inegáveis que muita gente ainda não conseguiu perceber:

  1. Existe uma sangrenta e violenta guerra que está a afectar muitas (mesmo muitas) pessoas, maior parte das quais são sírias.
  2. Essas pessoas tiveram as suas vidas interrompidas contra a sua vontade e, numa derradeira tentativa de sobrevivência, fugiram do seu país.

Agora peço-vos que dediquem alguns minutos a imaginar o seguinte cenário: de repente, vêem as vossas casas e cidades destruídas, os vossos amigos, familiares e vizinhos aos pedaços entre rios de sangue e entranhas e a cabeça do vosso irmão entregue à porta de casa numa caixa (não estou a inventar este pormenor). Podem dar asas à imaginação se quiserem, neste cenário de guerra não há limites para a crueldade humana. Convido-vos também a lerem os testemunhos de refugiados aqui.

Estas pessoas não queriam ter nada a ver com duas forças políticas que se degladiam pelo poder, mas que, ora uma ora outra, diariamente as ameaçavam de morte consoante as suas bárbaras ideologias. Quanto tempo de repressão e morte é que aguentariam perto de vocês até serem capazes de pagar dois mil euros e arriscar a vossa vida num mísero e sobrelotado barquinho salva-vidas pelo mar fora?

Estas pessoas não entram na Europa à procura de uma vida melhor. Vêm tão simplesmente à procura de uma vida. E se, por sorte, sobreviverem à viagem de barco, não só têm de lidar com os danos traumáticos que os últimos meses ou anos lhes provocaram, como também têm de aprender a lidar com o ódio de pessoas ignorantes que não entendem o que é colocar-se no papel do outro. Porque, apesar de todos os nossos azares, muita sorte temos em não estarmos a lutar pela sobrevivência no meio do terror e da violência. É que nesta questão dos refugiados, não é necessário entender-se toda a politiquice da guerra. Não é. Basta que se entenda a importância que tem qualquer vida e isso deve sobrepor-se a juízos, crenças e a qualquer medo infundado. Mas o medo  vem da ignorância e a ignorância deve ser combatida com a informação e com a comunicação.

Em nome da liberdade de expressão

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“Quanto mais corto… mais afiado fica…”

“Em nome da liberdade de expressão vão-se praticar os piores atentados contra essa mesma liberdade, por pessoas que não entendem que a decência e o respeito são suportes da liberdade. (…) Mas as vítimas principais, seja dos cartoons do Charlie ou dos tiros da Al-Qaeda, são a civilização, a democracia, a liberdade de expressão, a liberdade de religião e a simples dignidade humana.”

Tudo o que César das Neves diz está podre. Mas se há alguma coisa boa que daqui tiro, é que me dá ainda mais energia para expressar o que penso e para querer mudar o mundo para melhor. Ou para, pelo menos, pôr as pessoas a pensar a sério sobre este tipo de temas.

E o que significa pensar a sério? Não se resume a ler uma opinião e, por estar bem escrita, aplaudi-la de pé. Eu até aconselho uma boa parte das pessoas que conheço a colocarem por escrito aquilo que pensam e defendem e depois rirem-se do resultado patético a que chegam.

Vamos por partes: eu não me oponho que pessoas tenham opiniões diferentes das minhas, mas não me contento com o facto de tanta gente ter opiniões mal formadas, ou sustentadas por argumentos pobres e falaciosos. Enfim, isso acontece, ninguém é perfeito e não existe uma verdade. Confesso que o mesmo se passará comigo por vezes, embora tente evitá-lo a todo o custo: lendo muito, tanto sobre aquilo que apoio como o que condeno. O que realmente mais me incomoda é existirem pessoas que em teoria terão capacidade intelectual para defender uma verdade na qual acreditam, mas que depois cospem atrocidades numa embalagem bonita. Isso incomoda-me por causa das outras tantas pessoas que têm opiniões mal formadas: vão continuar a tê-las e vão continuar a contribuir para um atraso geral de mentalidades. Esse atraso preocupa-me porque pode ter (e tem) consequências graves, mas esse tema tem pano para mangas e deixá-lo-ei para outra oportunidade.

Para termos um argumento sólido, temos de ter conceitos bem definidos na nossa cabeça e acho que é essa a falha nº1 quanto ao tema do Charlie Hebdo (e a muitos outros). Quer seja fácil ou não de engolir, a liberdade de expressão é um direito universal (muitas vezes não respeitado, é certo), e permite-me a mim e a qualquer outro ser humano expressar ideias, informações e opiniões sem correr o risco de sofrer represálias. As ideias podem estar erradas, as opiniões podem ser estúpidas e no caso das informações serem falsas, encararei as respectivas consequências. Eu não posso ser impedida de fazer sátira só porque pode ser ofensivo para alguns, porque a linha da decência e do respeito e cada um define para si mesmo e não pode ser regulada. Porquê?, perguntam vocês. Porque isso desvirtua tudo aquilo que a liberdade de expressão representa! E não sou eu que o digo, é a Declaração Universal dos Direitos Humanos. Por isso, César das Neves, não. A liberdade de expressão não tem como suportes a decência e o respeito. Tem, pelo contrário, um modelo democrático e livre. Decência e respeito, com todo o respeito, cada um tem como lhe apetecer. E se me apetecer, liberto-me de toda a decência e respeito para provar um ponto de vista, sendo que provocarei algumas azias e sorrisos amarelos. Olha que pena.

Lamento estragar a festa para muita gente, mas este tema não pode ter outro tipo de abordagem. Não há cá cinzentos. Por isso, quando César das Neves diz que as vítimas do Charlie Hebdo são a liberdade de expressão, na verdade verifica-se exactamente o oposto. Não nos devemos deixar intimidar pelo medo, e tomemos como exemplo a coragem dos cronistas vítimas do ataque. A censura não venceu, a dignidade sim.

E acharem que se estão a pôr a jeito é um argumento que vale igualmente para as raparigas que são violadas porque estavam a usar uma saia curta, ou um top decotado. Por essa lógica, uma mulher que leve de um marido também é culpada. Provavelmente enviou uma mensagem a um amigo. De qualquer das formas, pôs-se a jeito… Eu vou fazer essa experiência. Vou provocar exaustivamente o meu namorado para ver se levo uma grande sova. Ou pelo menos um soco. Pode soar ridículo mas é exactamente isso que as pessoas estão a defender. E enfim. É demasiado primata para um ser humano não ser capaz de reconhecer quem é o verdadeiro culpado numa situação de agressão. Podem investigar mais sobre o tema aqui.

Culpabilizar o Charlie Hebdo por actos atrozes que se sucederam, como João César das Neves faz, é também desculpabilizar esses mesmos actos.