Uma catástrofe no Brasil

No dia 5 de Novembro de 2015 ocorreu em Mariana, Minas Gerais, o desabamento de uma barragem de resíduos de minério e de ferro. O acidente resulta num gravíssimo desastre ambiental, comparável ao acidente nuclear de Fukushima. A tragédia teve inúmeras consequências desastrosas, uma vez que foram largadas substâncias tóxicas no rio Doce (entre elas zinco, cobre, arsénio e mercúrio), no total de 60 milhões de metros cúbicos, equivalentes a 20 MIL piscinas olímpicas, tornando a água imprópria para consumo. Esta “lama tóxica” já alcançou o Oceano Atlântico.

Curiosamente, a cobertura mediática foi muito fraquinha. Será porque é algo que se passa do lado de lá? Talvez. Mas mesmo quando faço uma pesquisa intensiva sobre o assunto, não me parece que tenha tido até agora a atenção merecida a nível internacional. Porque é que é isto importante?

Em primeiro lugar, pelas consequências directas que teve: contam-se mais de 600 pessoas que ficaram sem casa, 17 mortos – humanos, porque a fauna e a flora do rio e das áreas ao redor foram exponencialmente mais afectadas, aniquilando a biodiversidade e as fontes de alimento da população do estado – 37 municípios continuam a ser afectados até hoje com dificultado acesso a água potável.

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E em segundo lugar, obviamente, pelas consequências a longo prazo. Por pelo menos 100 anos, a população e toda a cadeia alimentar da América do Sul (mais propriamente aquela que está mais próxima do Atlântico) estará gravemente comprometida.

De resto, existem também questões a nível da culpabilidade da Samacro e da Vale, indústrias envolvidas, processo que se encontra ainda em andamento, bem como o negativo impacto económico para o Brasil, que era o maior exportador de ferro e minério até à altura do acidente.

Eu pergunto-me o que é que estamos a fazer ao nosso planeta, às nossas pessoas e aos nossos animais em nome da ganância e da competitividade económica. Pergunto-me muitas vezes e nunca chego a uma conclusão. O mais triste é que não há assim tanta gente a querer saber destes acontecimentos, porque vivem na triste fantasia de que o mundo vai continuar a girar sempre a nosso favor.

Para quem tem interesse em saber mais sobre o tema:

Prefeituras relatam situação precária de cidades afetadas por lama em MG

Poluição resiste ao tempo e deixa água imprópria para consumo no Rio Doce

Quais os perigos da lama “tóxica” dos desastres de Minas Gerais?

Desastre em Mariana foi acidente ou crime?

Lama tóxica pode contaminar toda a cadeia biológica na região do Rio Doce, alerta geólogo

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Não se esqueçam dos refugiados

 

sirianrefugeesA crise da Síria tem imenso que se lhe diga e tenciono abordá-la aos poucos aqui no blogue. Se o tema já parece complexo a quem não está por dentro, sentimo-nos como a Alice a cair na toca do coelho à medida que tentamos entrar com precaução. É um buraco que parece não ter fim, do qual se torna muito difícil sair. Mas não desistam: é complexo, mas isso não significa que seja difícil. A complexidade vem do facto de, como em tudo na vida, haver muitas verdades, muitas perspectivas e opiniões que nos ajudam a conceber uma opinião mais sólida sobre o tema mas que nunca nos darão garantias de que estamos certos (uma sensação da qual não sou grande fã). Sou apologista de que se cada um de nós fizer um esforço por conhecer melhor a bruta realidade que existe para lá das nossas quatro paredes, o mundo tornar-se-á um bocadinho melhor. Porque quando estamos a cair na toca do coelho, tudo o que vemos mexe connosco e impele-nos a falar mais alto e a agir.

Os media fizeram uma pausa da intensa cobertura da crise dos refugiados sírios, dando-nos a leve impressão de que a coisa não está tão má, de que agir já não é tão imperativo como era no final do verão de 2015. Mas não é assim. Refugiados continuam a ser impedidos de alcançar refúgio, posições extremistas quanto ao tema proliferam pela Europa e pelo mundo e a crescente discórdia e intolerância vão alimentando a guerra, servindo de mote para uma agenda particularmente perversa.

A crise dos refugiados de guerra não pode ser esquecida. Fechar os olhos não pode ser uma opção. A União Europeia prevê que em 2016 mais 3 milhões de refugiados e migrantes chegarão à Europa. O nosso mindset tem de mudar.

Por um lado, sinto que já se esclareceram bastantes mitos que existem relativamente aos refugiados. Por outro, continuo a achar que contribuir para acabar com esses fracos preconceitos nunca é demais, principalmente porque estamos a referir-nos acima de tudo a vidas, que importam tanto como a vossa ou a minha. Na verdade, independentemente de todas as teorias explicativas geradas ao redor do conflito – umas certamente mais aproximadas à verdade do que outras – existem dois factos inegáveis que muita gente ainda não conseguiu perceber:

  1. Existe uma sangrenta e violenta guerra que está a afectar muitas (mesmo muitas) pessoas, maior parte das quais são sírias.
  2. Essas pessoas tiveram as suas vidas interrompidas contra a sua vontade e, numa derradeira tentativa de sobrevivência, fugiram do seu país.

Agora peço-vos que dediquem alguns minutos a imaginar o seguinte cenário: de repente, vêem as vossas casas e cidades destruídas, os vossos amigos, familiares e vizinhos aos pedaços entre rios de sangue e entranhas e a cabeça do vosso irmão entregue à porta de casa numa caixa (não estou a inventar este pormenor). Podem dar asas à imaginação se quiserem, neste cenário de guerra não há limites para a crueldade humana. Convido-vos também a lerem os testemunhos de refugiados aqui.

Estas pessoas não queriam ter nada a ver com duas forças políticas que se degladiam pelo poder, mas que, ora uma ora outra, diariamente as ameaçavam de morte consoante as suas bárbaras ideologias. Quanto tempo de repressão e morte é que aguentariam perto de vocês até serem capazes de pagar dois mil euros e arriscar a vossa vida num mísero e sobrelotado barquinho salva-vidas pelo mar fora?

Estas pessoas não entram na Europa à procura de uma vida melhor. Vêm tão simplesmente à procura de uma vida. E se, por sorte, sobreviverem à viagem de barco, não só têm de lidar com os danos traumáticos que os últimos meses ou anos lhes provocaram, como também têm de aprender a lidar com o ódio de pessoas ignorantes que não entendem o que é colocar-se no papel do outro. Porque, apesar de todos os nossos azares, muita sorte temos em não estarmos a lutar pela sobrevivência no meio do terror e da violência. É que nesta questão dos refugiados, não é necessário entender-se toda a politiquice da guerra. Não é. Basta que se entenda a importância que tem qualquer vida e isso deve sobrepor-se a juízos, crenças e a qualquer medo infundado. Mas o medo  vem da ignorância e a ignorância deve ser combatida com a informação e com a comunicação.

O maravilhoso mundo de Adina Rivers

Sabem aqueles momentos na vida em que de repente se dá um clique, e tudo (ou quase) passa a fazer imenso sentido? A era da informação pode propiciar esses momentos mas também pode encher-nos de tanto lixo e ideias feitas, que às vezes é difícil separar as águas.

Eu debato-me frequentemente com questões como a falta do contacto com a natureza num mundo cada vez mais “civilizado”. Esta perspectiva de que a natureza é uma outra coisa é uma tendência que, na minha opinião, deve ser contrariada. Eu sei, não é fácil. Eu achava que não era uma rapariga da natureza. Afinal, nasci na cidade, adoro todas as potencialidades do mundo urbanizado, condeno tantas outras, e sempre achei que me encontrava algures num equilíbrio entre a mão humana e o mundo em que habito. Mas nunca ninguém me veria a querer escalar uma montanha, ou a fazer caminhada, a acampar no meio da mata. Eu simplesmente achava que não era esse tipo de pessoa. Entretanto, cresci e aprendi que toda a gente é esse tipo de pessoa, mas a maioria de nós, sobretudo citadinos, desconectou-se do que é o natural. Inclusivamente, muitos de vós estarão quase a fechar esta janela por acharem que o meu discurso é todo New Age. Calma. Hoje vamos falar de sexualidade.

Há cerca de meio ano descobri no youtube a existência de uma mulher profundamente iluminada chamada Adina Rivers e os vídeos dela transformaram completamente a forma como encaro o meu corpo, a minha sexualidade e o mundo, no geral. Para mim ela é uma espécie de guru nestas áreas, sempre calma, humilde e bem informada e bem resolvida com a vida. Para mim, ela apregoa a tudo aquilo o que eu acho que é a forma ideal de viver. É suficientemente corajosa e capaz de falar sobre amor, sexo e técnicas sexuais, vaginas, pénis e mamas sem vergonha, culpa ou agressividade, conferindo ao tema a dignidade, abertura e beleza que ele merece.

Neste vídeo, ela fala sobre nudez. Qual foi a última vez que estiveste em nu integral (e sóbrio/a) perante um desconhecido? E se te lembras disso, como é que te sentiste?

Porque é que a nudez é uma coisa tão pouco natural para nós? E, mais importante ainda, porque é que insistimos em menosprezar o nosso corpo num ciclo vicioso de maus hábitos, de pensamentos negativos e de construção de uma imagem de nós próprios errada? Porque é que é tão difícil aprendermos a amar o nosso próprio corpo e a sentirmo-nos confortáveis na nossa pele? E porque é que é importante contrariarmos essas ideias? Este é mais um daqueles assuntos sobre os quais quero escrever testamentos infindáveis, mas por hoje deixo-vos com o vídeo da Adina, no qual ela se despe emocional e literalmente.

Os meus sisos (parte II)

Ora bem, eu continuo sem perceber porque é que estou a tirar os sisos, eles cresceram normalmente, nunca me deram dores e nunca me atrapalharam em nada. O médico disse que mais vale tirar porque não fazem falta, assim prevenimos problemas futuros, então vamos lá. Se há coisa que eu não quero é ter coisas no corpo que não preciso e que podem muito bem seguir o seu caminho. Tipo a gordura localizada. Mas adiante.

Ainda só tirei dois sisos há uma semana, os outros dois tiro daqui a uma semana.

Cheguei atrasada ao consultório, mas ainda bem, ainda tive de esperar uns 10 minutos, fazendo crochet nervosamente na sala de espera. Não há escapatória possível, rende-te ao teu fado. Vais tirar esses dentes e é hoje.

Chamaram-me para o gabinete, deitei-me cheia de tremeliques, não estava propriamente com medo das dores porque já me tinham assegurado que isso não é uma variante na equação, mas a ideia de me estarem a arrancar dentes enormes com raiz comigo ali a ver tudo estava-me a deixar um bocado enervada.

O doutor começou a anestesiar o local. Eu tenho uma relação complicada com agulhas, mas visto que era anestesia, recebi as injecções com todo o prazer. Não doem nada, até me souberam bem, e eu só desejava que nunca mais acabassem. Seguiu-se a remoção dos dentes, no total devo ter demorado 25/30 minutos. É apenas uma questão de dominarmos a cabeça, porque não dói nada – literalmente. Sentimos alguma pressão. Os barulhos não são propriamente agradáveis. Mas de resto, foi um episódio muito positivo. No fim, oferecem-nos os sisos, qual medalha de ouro. Eu, orgulhosa, aceitei e contemplei. Depois fiquei com pena. Depois fiquei sem saber o que lhes fazer. Agora já perdi um. Acho que vou deitar o outro fora.

Na hora e meia seguinte andei pelas amoreiras tipo vítima de trombose, a comprar os medicamentos, a beber frappé de café, a olhar para os meus sisos (como são enormes e nojentos), a comer gelado, a babar-me toda e a pensar na vida. Ainda senti durante umas horas o sabor a sangue que se intensificava quando eu falava, mas enfim. Nada me impede de falar sem parar, nem mesmo o risco de abrir os pontos. Mais ou menos. Jantei hambúrguer do H3 com arroz e batata frita. Custou mas foi, a mastigar só de um lado. No sábado foi bem mais fácil comer.

Fiz clavamox, brufen e outro medicamento qualquer para o inchaço e pus imenso gelo nas primeiras 6horas e no dia seguinte de manhã a caminho do trabalho. Não inchou praticamente nada. Depois, enfim, é continuar com a medicação, fazer a higiene adequada, bochechar e colocar uma pomada, não fazer exercício físico nas primeiras 48 horas. Cinco dias depois da extracção dos dentes deixei de tomar o brufen e tudo ok, só uma leve sensação de latejar de vez em quando. Tirar os pontos é um bocadinho incómodo mas mais fácil do que pensava.

Notas:

  1. O dentista mandou-me tomar o ibuprofeno 600 só ao jantar – NO CAN DO! 45 minutos a uma hora depois da operação já começava a sentir dores. Para a próxima tomo logo antes da cirurgia.
  2. 12 em 12 horas não foi suficiente, no dia seguinte alterei o esquema para tomar de 8 em 8, depois de passar uma noite aflitiva com dores tipo amigdalite.
  3. Cuidado a tomar o comprimido ainda sob o efeito da anestesia. Fiz primeira toma de medicação à confiança, e engasguei-me a sério e cuspi a farmácia. Não sentimos bem a boca, por isso algo simples como engolir o comprimido com a água pode ser um verdadeiro desafio. DISTO NENHUM BLOGUE ME AVISOU!

Os meus sisos (parte I)

2016 começou em grande, este mês de janeiro será sempre por mim recordado como o mês em que tirei os sisos. Sinceramente, penso que isso não interessará a ninguém. Mas a verdade é que antes e depois (durante não, mas só porque não consegui) andei a dissecar este belo mundo que é a internet à procura do que os desconhecidos dizem sobre este ritual de transição tão temido. Quero fazer parte desse grupo de gente simpática que perde tempo a consolar os outros nestes momentos de vulnerabilidade. Mas tudo o que li foi de gente piegas. É claro que cada um reage de forma diferente, mas há certas coisas que… por amor de deus. Tipo “assegura-te que levas alguém para te agarrar a mão, ou no mínimo um peluche”. Vá lá pessoal.

Ainda me lembro quando despontou o meu primeiríssimo siso. Foi na altura do carnaval de 2010, quando eu tinha 18 anos e estava (como é óbvio) em Torres Vedras a desbundar à maluca com a minha amiga Mariana. Não foi bem assim. Divertimo-nos, mas não assim tanto. Foi o suficiente, sobretudo para mim, que tinha acabado de completar 18 lindas primaveras e agora queria comportar-me como uma senhorita – a beber shots e a saltitar mascarada de galinha cor de rosa. A certa altura um rapaz veio ter comigo e disse-me, entusiasmado: “Vou meter MD hoje pela primeira vez”. Na incerteza da qualidade de convite daquela abordagem, fiz logo questão de dizer que abomino essas coisas e que ele deveria fazer o mesmo. Foi o meu primeiro “contacto” com o MD, por assim dizer. Não sei se já tinha estado tão perto de poder consumi-lo se quisesse. Fiquei orgulhosa. Quase que aposto que levei as mãos à cintura com um sorriso triunfante. Ainda o chateei, para que ele pensasse bem no que estava a fazer, até que concluí que pouco me interessava o que ele fazia com a vida dele. Mais ou menos.

A  noite foi longa, a manhã seguinte difícil e o dia pior ainda. Via pessoas a quererem levar a festa longe demais e só me apetecia voltar para o conforto da minha casa. Pensei muito sobre isso. Sobre o facto de ter bem definido para mim até onde quero ir e sobre como me custa aceitar que as outras pessoas não pensem ou não se comportem como eu. Se sabem que está errado e que faz mal, porque é que querem fazê-lo? Oh, ingrata ingenuidade. E foi enquanto reflectia sobre todas estas questões, que a dor do siso a começar a nascer deu um toque romântico àquele fim-de-semana. Toda uma simbologia. Meu querido primeiro siso. Nunca esquecerei este dia. Bem-vindo.

Em nome da liberdade de expressão

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“Quanto mais corto… mais afiado fica…”

“Em nome da liberdade de expressão vão-se praticar os piores atentados contra essa mesma liberdade, por pessoas que não entendem que a decência e o respeito são suportes da liberdade. (…) Mas as vítimas principais, seja dos cartoons do Charlie ou dos tiros da Al-Qaeda, são a civilização, a democracia, a liberdade de expressão, a liberdade de religião e a simples dignidade humana.”

Tudo o que César das Neves diz está podre. Mas se há alguma coisa boa que daqui tiro, é que me dá ainda mais energia para expressar o que penso e para querer mudar o mundo para melhor. Ou para, pelo menos, pôr as pessoas a pensar a sério sobre este tipo de temas.

E o que significa pensar a sério? Não se resume a ler uma opinião e, por estar bem escrita, aplaudi-la de pé. Eu até aconselho uma boa parte das pessoas que conheço a colocarem por escrito aquilo que pensam e defendem e depois rirem-se do resultado patético a que chegam.

Vamos por partes: eu não me oponho que pessoas tenham opiniões diferentes das minhas, mas não me contento com o facto de tanta gente ter opiniões mal formadas, ou sustentadas por argumentos pobres e falaciosos. Enfim, isso acontece, ninguém é perfeito e não existe uma verdade. Confesso que o mesmo se passará comigo por vezes, embora tente evitá-lo a todo o custo: lendo muito, tanto sobre aquilo que apoio como o que condeno. O que realmente mais me incomoda é existirem pessoas que em teoria terão capacidade intelectual para defender uma verdade na qual acreditam, mas que depois cospem atrocidades numa embalagem bonita. Isso incomoda-me por causa das outras tantas pessoas que têm opiniões mal formadas: vão continuar a tê-las e vão continuar a contribuir para um atraso geral de mentalidades. Esse atraso preocupa-me porque pode ter (e tem) consequências graves, mas esse tema tem pano para mangas e deixá-lo-ei para outra oportunidade.

Para termos um argumento sólido, temos de ter conceitos bem definidos na nossa cabeça e acho que é essa a falha nº1 quanto ao tema do Charlie Hebdo (e a muitos outros). Quer seja fácil ou não de engolir, a liberdade de expressão é um direito universal (muitas vezes não respeitado, é certo), e permite-me a mim e a qualquer outro ser humano expressar ideias, informações e opiniões sem correr o risco de sofrer represálias. As ideias podem estar erradas, as opiniões podem ser estúpidas e no caso das informações serem falsas, encararei as respectivas consequências. Eu não posso ser impedida de fazer sátira só porque pode ser ofensivo para alguns, porque a linha da decência e do respeito e cada um define para si mesmo e não pode ser regulada. Porquê?, perguntam vocês. Porque isso desvirtua tudo aquilo que a liberdade de expressão representa! E não sou eu que o digo, é a Declaração Universal dos Direitos Humanos. Por isso, César das Neves, não. A liberdade de expressão não tem como suportes a decência e o respeito. Tem, pelo contrário, um modelo democrático e livre. Decência e respeito, com todo o respeito, cada um tem como lhe apetecer. E se me apetecer, liberto-me de toda a decência e respeito para provar um ponto de vista, sendo que provocarei algumas azias e sorrisos amarelos. Olha que pena.

Lamento estragar a festa para muita gente, mas este tema não pode ter outro tipo de abordagem. Não há cá cinzentos. Por isso, quando César das Neves diz que as vítimas do Charlie Hebdo são a liberdade de expressão, na verdade verifica-se exactamente o oposto. Não nos devemos deixar intimidar pelo medo, e tomemos como exemplo a coragem dos cronistas vítimas do ataque. A censura não venceu, a dignidade sim.

E acharem que se estão a pôr a jeito é um argumento que vale igualmente para as raparigas que são violadas porque estavam a usar uma saia curta, ou um top decotado. Por essa lógica, uma mulher que leve de um marido também é culpada. Provavelmente enviou uma mensagem a um amigo. De qualquer das formas, pôs-se a jeito… Eu vou fazer essa experiência. Vou provocar exaustivamente o meu namorado para ver se levo uma grande sova. Ou pelo menos um soco. Pode soar ridículo mas é exactamente isso que as pessoas estão a defender. E enfim. É demasiado primata para um ser humano não ser capaz de reconhecer quem é o verdadeiro culpado numa situação de agressão. Podem investigar mais sobre o tema aqui.

Culpabilizar o Charlie Hebdo por actos atrozes que se sucederam, como João César das Neves faz, é também desculpabilizar esses mesmos actos.

Sobre as felicitações de aniversário

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De entre as regras que nos orientam a vida social, uma das minhas preferidas é a das felicitações de aniversários. À primeira vista, dar os parabéns não passa de uma convenção social que demonstra cortesia e apreço. Mas assim que começamos a olhá-la com mais atenção, pode ser uma poderosa e eficaz arma capaz de aniquilar qualquer relação social.

Eu tenho alguma facilidade em recordar datas de aniversários. Lembrar-me de dar os parabéns no próprio dia é outra conversa. No entanto, existe uma linha em constante movimento que separa as pessoas que eu adoro e as pessoas que não me dizem absolutamente nada. Sinceramente, tenho dificuldades em estabelecer o critério de selecção para colocar uma pessoa num lado ou noutro.

Há os amigos e os bons amigos. Há os amigos que estão no fundo do coração que, por maior que seja a distância ou o tempo que nos separa, não saem dali nem por nada. Até aqui tudo bem. Mas fora deste círculo a coisa começa a azedar.

Existem pessoas com quem me comunico frequentemente mas com quem não sinto particular ligação. A norma obriga-me a felicitá-las com um simples “Parabéns pelo teu dia, aproveita! :)”

Existem pessoas com quem, contra a minha vontade, tenho uma ligação mas das quais não gosto lá muito. Eu sei que fazem anos, eu tenho de lhes dar os parabéns mas não existe uma forma de lhes fazer ver que na verdade não queria dar-lhes esse prazer, a não ser reduzir a minha mensagem a uma palavra. E enviar com atraso de três dias, como castigo, para sublinhar que não gosto delas.

Há pessoas de quem simplesmente me esqueço e, quando me lembro já passaram dois meses. Consolo-me pensando que afinal é só mais uma data, a pessoa não levará a mal. Mas esse peso atormenta-me durante o resto do ano, até para aí um dia antes do próximo aniversário. Aí começa tudo de novo.

Depois há aquelas que eu fico na expectativa de que se esqueçam do meu aniversário, para eu ter moral de responder da mesma forma e nunca mais termos de nos comunicar nessas duas vezes por ano. É como que um suspiro de alívio depois de tirar os sisos. Não é que chateassem muito, mas estavam a ocupar espaço sem motivo para isso. Sigam o vosso caminho.

O Facebook veio revolucionar toda esta conduta das mensagens de parabéns, alguns crêem que para melhor, para mim é para pior. Receber centenas de mensagens das quais dois terços são de pessoas que não têm qualquer relevância na minha vida irrita-me. Para que é que me estão a fazer isto? Não têm qualquer tipo de filtro? Apagar uns quantos amigos da minha lista faria todo o sentido, mas sinceramente não tenho paciência. Por outro lado, esfregarem-me todos os dias na cara que devo dar os parabéns a alguém faz-me sentir má pessoa porque não quero e não vou dar. E o destinatário da mensagem nunca vai saber se o estou a fazer por vontade própria, ou por sugestão de uma estúpida rede social.

(Posto isto, talvez a minha ideia de que imensa gente pensa como eu seja mentira e à pala disto vou perder “amigos”. Lol.)

Por isso, no ano passado, algumas semanas antes do meu aniversário ocultei a data do meu perfil. Podemos chamar-lhe uma espécie de estudo do comportamento social dos meus amigos do face. Foi como limpar todo o spam da caixa de correio! Finalmente, parabéns exclusivamente genuínos e com qualidade, apenas das pessoas que me querem bem. E algumas menos próximas mas que mostraram de forma transparente “ei, eu tenho-te em consideração para me lembrar de ti e escrever-te”.

E, de repente… dei-me conta que faltaram algumas pessoas de quem eu esperaria alguma palavrinha… e comecei a ficar um tanto ou quanto desiludida, não pelo acto em si, mas pelo que ele representa. Onde é que esta pessoa me coloca? No saco do esquecimento, ou no saco daqueles com quem quer cortar relações? Será que é um ataque pessoal? Devo tentar ser melhor pessoa?!

E depois volto ao mesmo. Quero lá saber de mensagens de aniversário. Só dos presentes.